Quando discutimos drenagem urbana, precisamos olhar para a forma como a cidade é ocupada. Redes, galerias e canais fazem parte do problema. Mas precisamos discutir principalmente o uso do solo, a manutenção da infraestrutura e a maneira como os poderes públicos lidam com as mudanças climáticas. Quando esses assuntos são tratados separadamente, podemos executar uma obra em determinado ponto e continuar com o problema em outro.
A chuva deixa isso mais visível, porque os prejuízos chegam diretamente às pessoas: a rua alagada, a casa atingida, o acesso interrompido. Mas as decisões que contribuem para esse resultado são tomadas antes, na ocupação de uma área, no projeto de uma via, na manutenção da rede e na escolha de onde investir.
O investimento necessário
Os números apresentados pelo Instituto Trata Brasil ajudam a dimensionar a falta de investimento. No período de 2017 a 2023, foram aplicados em média cerca de R$ 10 bilhões por ano em drenagem e manejo de águas pluviais. A estimativa citada pelo instituto aponta necessidade adicional de R$ 223,3 bilhões até 2033, equivalente a aproximadamente R$ 22,3 bilhões por ano no horizonte do estudo. No recorte per capita, o valor de R$ 43,79 registrado em 2023 é comparado com uma necessidade estimada de R$ 117,01 por habitante.[1]
Esses valores são referências do levantamento, com seus períodos e premissas, em preços de junho de 2023. Não são uma atualização do saldo de investimento necessário em 2026. Eles ajudam a discutir a dimensão do investimento, mas a decisão sobre uma intervenção depende também do diagnóstico local: qual é o problema, quem está sendo afetado e o que precisa funcionar depois da obra.
Conhecer a rede e o caminho da água
Antes de decidir pela construção ou ampliação de uma estrutura, precisamos entender o sistema existente. Quais redes estão cadastradas? Em que condições estão? Onde a água entra, por onde segue e qual é a capacidade do trecho que recebe esse escoamento?
A falta desse conhecimento dificulta a decisão técnica. Um alagamento pode estar relacionado à capacidade da rede, à obstrução de um dispositivo, às condições do ponto de descarga ou às mudanças ocorridas na bacia. A solução precisa considerar essas possibilidades e verificar o que de fato acontece naquele local.
Uma intervenção isolada também pode transferir o problema para jusante. Ampliar o escoamento de um trecho exige conferir o que acontece nos trechos seguintes. Essa análise fica incompleta quando se limita à rua onde a água se acumulou.

Ocupação do solo e manutenção entram na mesma discussão
O projeto de drenagem precisa conversar com a forma como o território está sendo ocupado. A impermeabilização, as áreas disponíveis para infiltração e retenção e as alterações no percurso da água fazem parte dessa leitura. O dimensionamento das estruturas e a regulação do uso do solo precisam ser discutidos juntos.
Isso também exige capacidade técnica nos municípios. Plano de drenagem, cadastro georreferenciado e estudos hidrológicos e hidráulicos ajudam a sair de uma sequência de intervenções pontuais para um conjunto de ações com prioridades conhecidas. Sem esse trabalho, fica difícil comparar alternativas e explicar por que determinada obra deve vir primeiro.
As soluções podem combinar redes e galerias com reservatórios, áreas de retenção, jardins de chuva e outras intervenções adequadas ao local. A escolha depende das condições da bacia, do espaço disponível e da capacidade de operar e manter o que for implantado.
A manutenção precisa entrar desde o planejamento. Limpar um canal ou desobstruir uma boca de lobo pode ser necessário, mas essas ações precisam fazer parte de uma rotina conhecida, com responsáveis, cadastro e acompanhamento. A infraestrutura continua exigindo cuidado depois da entrega.
A Norma de Referência nº 12/2025 da ANA trata, entre outros aspectos, da articulação da drenagem com o planejamento urbano, do cadastro técnico e das atividades de operação e manutenção.[2] Essa referência não dispensa os estudos de cada bacia nem define, sozinha, qual solução deve ser implantada em um local.
Organizar a decisão
Para melhorar essa gestão, o município precisa conhecer os pontos críticos, organizar os projetos por bacia e avaliar as intervenções considerando também seus efeitos a jusante. Depois, é necessário definir fases de implantação e acompanhar a operação do sistema.
BIM, geoprocessamento e dados de chuva podem ajudar na compatibilização, no cadastro e na análise. Sua utilidade depende da qualidade das informações e de como a equipe consegue incorporá-las às decisões de projeto e manutenção.
Discutir drenagem dessa forma permite relacionar a obra com o funcionamento da cidade. O recurso aplicado precisa resultar numa infraestrutura que funcione e consiga ser mantida. É essa relação entre conhecimento técnico, ocupação do território e gestão que precisamos melhorar.
Fontes
[1] Instituto Trata Brasil. Investimento per capita em drenagem urbana precisaria mais que dobrar, 06/02/2026. Valores e períodos conforme apresentação do instituto; não são um diagnóstico de Campina Grande.
[2] ANA. Resolução nº 245/2025 e Norma de Referência nº 12/2025, sobre estruturação dos serviços de drenagem e manejo de águas pluviais urbanas.
Texto, referências e diagramação revisados em 05/10/2026. A data original da publicação foi mantida. Os exemplos de possíveis causas exigem verificação técnica local.


Deixe um comentário